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_ domingo, Janeiro 18, 2009 _


(1) vi a rapariga falar com as outras pessoas. era ainda adolescente, talvez 18 ou 19 anos, calçava umas sapatilhas Nike, com cores fluorescentes, empoeiradas, e as calças de ganga estavam rasgadas na baínha. eu estava a comer uma salada tropical e ela aproximou-se da minha mesa. como tinha antecipado a pergunta limitei-me a responder com um aceno de cabeça. ela voltou a insistir, disse que tinha perdido a carteira, não tinha dinheiro, e desta vez eu expliquei que não tinha moedas e ambos percebemos a retórica mentirosa dos nossos discursos. a rapariga voltou-se para outra mesa. eu estava sozinho, e ver quais as pessoas que davam ou não algumas moedas passou a ser uma forma de passar o tempo da refeição.
a rapariga voltou alguns minutos depois com um tabuleiro na mão, sentou-se na minha mesa, e desembrulhou um hambúrguer. nesta altura eu estava ainda a comer a minha salada tropical, a fazer o esforço consciente para comer naturalmente a salada tropical. tentei focar a atenção noutras pessoas. a rapariga comia muito serenamente e conseguia ignorar-me totalmente. quando a minha refeição terminou, eu era fraco e a rapariga era forte.
contei isto e fui recriminado: "é muito triste que te custe dar uma moeda a uma pessoa que precisa de comer".

(2) estava à espera de uma amiga e fui abordado por uma senhora que fez uma introdução algo rebuscada e algo interminável à qual eu ia reagindo com uma expressão facial que indicasse que não iria aceder a nada que me propusesse, sinal que ela percebia e ignorava, prosseguindo e fazendo um esforço cada vez maior para causar empatia entre nós. e eu como estava naquele local por um propósito, sem poder movimentar-me, ouvi toda a história. a senhora teve um domínio total do diálogo e apenas me deu oportunidade para falar quando terminou. eu recusei. ela fez um sorriso e disse: "custa muito dar 50 cêntimos não custa?".
a mudança drástica de uma simpatia forçada para um sarcasmo tão cortante foi surpreendente. senti que a senhora era forte e eu era fraco.
João | 01:34 |

6 Comments:

At 18/1/09 17:51, Blogger Daniel J. Skråmestø said...

Uma vez fui à feira do livro do Porto dar autografos. Como ninguém me conhecia estive muito tempo só a olhar para as pessoas que passavam sem me darem nenhuma atenção. A certa altura um homem aproximou-se, reparou que eu estava atrás de muitos livros iguais e perguntou:
- você é um escritor?
Eu assenti que sim com a cabeça e sorri. Ele pegou num dos exemplares do livro, leu com algum desinteresse a sinopse da contracapa e perguntou-me:
- Quantos livros já escreveu?
Eu disse
- só esse.
Ele disse:
-Então ainda não é escritor porque só depois de se escrever dois livros é que se é escritor.
E foi-se embora.
Naquele momento eu senti que ele era forte e eu era fraco. Ele tinha convicções e eu raramente tenho alguma. Mas o que me deixou triste foi sentir que ele nunca deixaria de ser um idiota, mesmo que eu me tivesse lembrado de uma coisa inteligente para lhe responder.

 
At 18/1/09 19:26, Blogger João M said...

ah, as situações que nos marcam porque faltou uma resposta à altura... mas entretanto, pelos critérios desse senhor, já passaste a ser um escritor.
de qualquer forma não é a mesma situação - neste caso, referia-me a pessoas que por circunstâncias desconhecidas dependem de esmola embora demonstrem mais capacidades para "vencer" do que eu.

 
At 18/1/09 19:54, Blogger Eduardo said...

Mas pelo menos desabafaste sobre um dilema pessoal. Já é qualquer coisa.

 
At 18/1/09 23:40, Blogger João M said...

Eduardo, isto era um draft do dia 08 de Maio de 2006. mas quem é que come saladas tropicais com este frio?

 
At 19/1/09 00:06, Blogger Eduardo said...

Eu.

 
At 22/1/09 18:58, Blogger O Puto said...

Olá, João! Estás bom?
Será que a rapariga e a senhora também se sentiram mais fortes que tu nessas situações? Não sei porquê, mas quando me pedem dinheiro, ou acedo, caso sejam suficientemente convincentes (porém, acedo cada vez menos vezes), ou recuso com um pequeno sorriso. Não sei o que será pior.
Abraço!

 

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