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_ terça-feira, dezembro 20, 2005 _



tenho uma relação estranha com a obra do François Ozon. gosto moderadamente dos filmes no próprio dia, mas preciso de algumas semanas ou meses para gostar muito. o que acaba eventualmente por acontecer. um belo dia acordo e já está. neste momento gosto muito de todos os filmes do François Ozon, mesmo das cantorias pueris do '8 femmes'.


a propósito do filme que há-de estrear, venho aqui fazer uma declaração de amor ao anterior, '5x2', do qual não tive grande primeira impressão. o formato trás-para-a-frente pareceu-me um artifício espertinho para dissimular um argumento banal, tomando partido de uma corrente que valoriza a inovação formal em detrimento da estória. muita porcaria vi à custa destas inovações formais, e inclusive, até acho que não é por acaso que o Clint Eastwood, enquanto realizador clássico assumido, tem sido tão aclamado (ou sobrevalorizado). as pessoas estão a rebelar-se contra a procura gratuita de novas fórmulas (e eu com elas).
mas as primeiras impressões valem o que valem, seria injusto incluir '5x2' nessa categoria. aliás, o que gosto mais no filme é uma certa visão moralista sobre as relações amorosas, permitida precisamente pelo exercício da inversão temporal - porque é que o fim tem de ser mais importante? porque é que na putativa pós-relação com um ex-coiso, os rancores do fim se sobrepõem? porque é que não somos boas pessoas?


François Ozon consolida o amor (a última vez que escrevo esta palavra juro) num ponto impossível, o início. por isso é que é bonito e moralizador. é óbvio que não há boas pessoas, nem boas relações, mas a ideia é bonita. acho que '5x2' é um feeling good movie. começa denso e visceral, acaba leve.
e os actores habitam esta história tão bem. a Valeria Bruni-Tedeschi tem um rosto que não se esgota, é a minha actriz francesa preferida. e o Stephen Freiss, com barbicha no primeiro/último bloco, está fofinho - fofinho pode ser uma coisa sexualmente atractiva, (e bruto, cof cof, esforço de concentração outra vez).


recuando a 'Swimming Pool', lembro-me que a Ludivigne Sagnier ligava a aparelhagem para dançar uma música tecno-chunga onde uma voz ofegante repetia Let's do it! Let's do it!, contra o visível desconforto da Charlotte Rampling. uma cena excelente de tensão erótica. aqui a música equivalente é do Paolo Conte, chama-se 'Sparring Partner'. ao som desta música, Valeria Bruni-Tedeschi dança com um ragazzo latino de copo de vinho na mão, levemente embriagada, enquanto os respectivos companheiros de um e outro observam a dança no sofá. é a minha cena de tensão erótica preferida de todo o filme, a minha música preferida.


conclusão: não há epidurais afectivas para os finais amorosos, mas o início é porreiro. agora punha aqui a letra do Tempo de Nascer dos Ornatos Violeta se existissem (update) letras dos Ornatos Violeta na net. improviso com a 'Ferdinand de Saussure' dos Magnetic Fields, que também estive a cantarolar mentalmente enquanto escrevia o post - na na na na.
I met Ferdinand de Saussure on a night like this, on love he said "I'm not so sure I even know what it is" - I'm just a great composer, and not a violent man, but I lost my composure, and I shot Ferdinand.
João | 19:19 |

5 Comments:

At 21/12/05 02:34, Blogger COCOnaVENTOINHA said...

Assim de repente:
a) filmes de trás para a frente
b) que "começam densos e viscerais e acabam leves"

...mais parecia que estavas a falar do Irreversible.

(gosto da pose putéfia charlottiana...)

 
At 21/12/05 07:48, Blogger bicho_de_conta said...

Moço, não seja por isso! :)

Gosto de ler os teus posts às sete da manhã... e o final do "Ninguém Como Tu" foi de uma fajutice sem igual :(

Beijinhos,

Lia

"Eu sei
Eu quis demais
E o sonho nada trás
Sonhar seduz a paz
Eu sei
Eu vi
Em meu crescer
Que eu vou sempre dar a mim

Imploro a luz e sigo sempre à sombra
Imploro a morte e volto à luz

Alguém pensou em mim à boca da varanda
Eu não senti que houvesse alguma razão para amar
Imploro a queda como quem não quer saber

É tempo de nascer devagar
Não quero ver o fim chegar sem eu nascer devagar
Eu não quero ver o fim sem eu nascer

Quando eu sonho eu levo a minha força até ao fim
E quando o sonho acaba cego
Eu olho fundo para mim
E não vejo nada além da tão real ausência de outra luz
E só por ela volto à minha cruz
À minha cruz

Eu vi meu pai nascer na mesma cama de outros homens
E hoje eu sei
Eu aprendi

Já nada importa agora à luz
Do trago de onde vim
Se há luz lá fora eu quero que haja luz em mim

É tempo de nascer devagar
Não quero ver o fim chegar
Sem eu nascer devagar
Eu não quero ver o fim sem eu nascer

Vem ver
Quem vi nascer
É filho de outra guerra
No trilho de outra paz

Alguém entrou em mim
Entrego a minha espada
Eu não senti que houvesse alguma razão para amar
Imploro a queda como quem não quer saber

É tempo de nascer devagar
Não quero ver o fim chegar
sem eu nascer devagar
Eu não quero ver o fim sem eu nascer"

 
At 21/12/05 09:37, Blogger João M said...

Cócó, eu vi isso em DVD, pus para a frente nas partes mais viscerais (sou um betinho). E o 'Memento' é outro.

Lia, muchas gracias. Por acaso lembrei-me de ti quando escrevia a intenção falhada de citar os Ornatos. I wonder why... :p

 
At 21/12/05 10:54, Blogger Venus as a boy said...

De vez em quando preciso de ouvir a música do Paolo Conte.
Para além daquela cena que falaste do filme (a da dança) guardo na minha memória aquele pôr do sol fantástico na praia (ai... eu e o mar e o verão...)
;)

 
At 21/12/05 16:50, Blogger O Puto said...

Devo uns quantos filmes ao François Ozon.

 

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