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_ quinta-feira, agosto 25, 2005 _



a vida deles

Reflexão pós-filme (Son Frère, de Patrice Cherau):
A minha relação com a família tem mudado com o passar dos anos. Quando vim morar em Lisboa por causa da faculdade, em 1999, cortei alguns laços de sangue. Fora do meu espaço geográfico, muitos primos, tios e tias acabaram por não ocupar mais do que um quadradinho no álbum de fotografias. Para eles passei a ser o primo da cidade, e cá, livre dessas relações de sangue, arranjei outra família (olá Rita, olá Filipe). Sempre que tinha um atrito com a família de lá, questionava mais e mais o seu valor - eu preciso de vocês?; quem é a minha família?
Do ano 2000 para a frente, onde o corte com alguns familiares já era evidente, passei a temer jantares de Natal, aniversários e encontros pontuais semelhantes. Eram encontros hipócritas, desconfortáveis, onde os rancores que as pessoas guardam eram vísiveis (e eu, o primo afastado, era dos que mais rancores guardava). Nessa altura, o valor da família biológica era muito pouco, um sacrifício.
Em 2005 as coisas estão outra vez a mudar, e aqui estou muito em sintonia com o filme, reencontro de dois irmãos numa situação limite e progressiva recuperação de intimidade. Podemos desisitir da família da mesma forma que desistimos de um amigo? Eu acho que não, embora já tenha pensado que sim. Os laços de intimidade que se forjam quando somos muito pequeninos não são iguais aos que construímos agora. É certo que as pessoas se chateiam, afastam-se, deixam de sentir a falta umas das outras. Mas depois dos rancores, conseguir passar uma tarde a conversar com essa "família" perdida traz um calor e um alívio que não se sente em situação idêntica com mais ninguém. Essa intimidade da infância fica para sempre dentro de nós. É bom voltar a ter cumplicidade com a avó, apesar da homofobia e do machismo.
E a minha reflexão paralela ao filme é mais ou menos esta. Podemos escapar aos reencontros com amigos perdidos, mas não nos livramos dos reencontros com a família.

A forma como se passa uma hora inteira até os dois irmãos darem outra vez as mãos (foto acima) é comovente. O filme é muito mais do que relações familiares, mas tudo o que existe no filme também cabe nas relações familiares: morte, vida, aceitação, amor, rancor, ódio, perdão, mágoa, etc.
João | 10:12 |

9 Comments:

At 25/8/05 14:56, Blogger rita said...

se vir filmes sobre família, nos próximos tempos, corto os pulsos.

 
At 25/8/05 15:47, Blogger João M said...

lol

 
At 25/8/05 17:20, Blogger rita said...

olá joão, amigo do coração :-)

 
At 25/8/05 17:40, Blogger gonn1000 said...

Também gostei do filme, embora esperasse mais (não sei se se aguentava sem actores daquele calibre). E já agora também gostei do teu post (um dos melhores que escreveste ultimamente), também senti mais ou menos isso ao ver o filme.

 
At 25/8/05 17:45, Blogger João M said...

Gonçalo, obrigado!

:-)

 
At 25/8/05 18:33, Blogger O Puto said...

Excelente reflexão, que culmina num "se não os podes vencer, junta-te a eles". Mas tens razão quanto aos laços familiares. Família não se escolhe e é nossa para sempre, independentemente da nossa vontade. O que é involuntário é sempre mais forte, não achas?

 
At 25/8/05 18:46, Anonymous Anónimo said...

não me parece que tenhas razão em tudo. mas o reencontro é inevitável.

 
At 26/8/05 03:49, Blogger Rogério Nuno Costa said...

se se trocar 1999 por 1996, 2000 por 1999 e 2005 por 2002, o texto bem que podia ser meu...

 
At 29/8/05 16:05, Anonymous Anónimo said...

uhm uhm...

 

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