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_ segunda-feira, agosto 22, 2005 _


a tia era maluca e o bucho desmanchado


Dado que os almoços de família não podem ter só desvantagens, descobri ontem que a minha falecida tia-avó foi prostituta na década de 50. Uma revelação completamente "Donas de casa desesperadas", mas aparentemente só eu é que não sabia (aah, a verdade escondida!). A velhinha foi prostituta - que orgulho, que alívio, não sou a primeira ovelha negra na família. O nome era Ermelinda mas todos a tratavam por "tia maluca", facto que nunca questionei. Agora percebo que era necessário um nome inimputável para pôr a funcionar a caridade de uma família profundamente católica e analfabeta.

Tenho muitas recordações desse tempo. A minha tia era a bruxa da aldeia. Lembro-me de assistir a leituras de tarot, de haver revelações grandiosas, e de como ela sabia adaptar os espíritos à escala do meu mundo quando eu e os meus primos pedíamos uma leitura, revelando coisas sem importância nenhuma. "Amanhã encontras uma nota de 100 mérreis no chão". "Amanhã vai à loja do Sr Ramiro que ele dá-te uma pastilha". Também me lembro de lhe ter perguntado se devia escolher francês ou inglês no ciclo, e ela que estava a comer carapaus cozidos fez uma coisa divertidíssima: meteu mais azeite no prato e viu o meu futuro nas bolas que o azeite formava; depois comeu o futuro. Disse-me para escolher o francês, mas eu, rapaz já afinado com o mundo, escolhi inglês. Acho que foi nesse ano que morreu.
Agora que penso nisso, o azeite devia ser um utensílio muito útil nestas artes mágicas, porque também me lembro de perder o apetite e ser levado ao ermo da "tia maluca" com uma garrafa de azeite nas mãos. A expressão utilizada para descrever a minha maleita era "bucho desmanchado". O que se seguia prova que a credulidade humana é uma coisa espantosa. Deitavam-me numa cama e suspiravam-se rezas enquanto a minha avó me massajava a barriga com o azeite. Esta parte era muito agradável. O processo acabava com a colocação de uma folha de couve inteira contra a minha barriga bezuntada, que era enfaixada com gaze; e eu tinha de andar com o azeite e a couve durante três dias inteiros. Ao terceiro dia o cheiro era memorável, mas ao menos poupava-se nas consultas da Doutora Isabel Guerra. E assim cresceu mais um rapaz do campo. Olá tia!
João | 11:06 |

9 Comments:

At 22/8/05 13:46, Blogger gonn1000 said...

Meu Deus, a vida no campo é assim??? Ao menos os meninos da cidade não têm de andar com couves na barriga, é a vantagem de ser alfacinha (um comment tosco, eu sei, mas afinal é segunda-feira, tenho desculpa...) :P

 
At 22/8/05 14:44, Blogger João M said...

A vida no campo era assim nos eighties. Agora os rapazes do campo crescem com MTV e Internet na sopa; e os pais têm um jipe e passam férias no Algarve. :-)

 
At 22/8/05 15:13, Anonymous Jonsi said...

Olha isso do bucho era frequente, também me lembro de me fazerem isso, mas penso que lhe chamavam bucho virado.

 
At 22/8/05 15:16, Blogger João M said...

"bucho virado"? E também tinhas direito à folha de couve? Que giro, pensei que fosse uma coisa só da minha aldeia.

 
At 23/8/05 02:34, Blogger Monastero said...

E agora já tens o bucho refeito? O que é o bucho?? Afinal andas protegido contra o mau olhado e não me dizias nada!

 
At 23/8/05 03:46, Blogger O Puto said...

Eu cheguei a assistir a uma cura de mau-olhado, e uma vizinha da minha avó queimava umas folhas numa sertã, mas não me lembro muito bem para que era. Aqui em Trás-os-Montes e Alto Douro ainda é assim.

 
At 23/8/05 10:18, Blogger João M said...

Puto, se calhar as folhas que ela queimava era para fumar.
Monastero, para ficar protegido contra o mau-olhado tem de se usar aquele olho nos fios. Mas eu não acredito nessas coisas, nem o horóscopo da Maya leio.

 
At 23/8/05 11:12, Blogger O Puto said...

Mas crês na ciência, não crês? Então acreditas naqueles mapas astrais, concebidos através de um software qualquer, que uma senhora apresenta num dos programas da manhã na TV portuguesa (não me lembro bem qual).

 
At 23/8/05 12:50, Anonymous Jonsi said...

Folha de couve, azeite, massagem, all that jazz, isso não é assim tão raro...
Quando ao horoscopo... ja acreditei menos... it's scary.

 

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